Em um livro intitulado “Mal-Estar na civilização”, Sigmund Freud aponta para um princípio chamado de REALIDADE. Ele ocorre quando percebemos que existe diferença entre a nossa parte interna, o que ele denominou EGO, e o que há fora - os outros, a sociedade, as ruas. Entretanto, o estudo psicanalítico aponta para uma ligação imanente (sem espaço ou dicotomia) entre o dentro e o externo. A nossa consciência seria a ponte para a passagem de um lugar ao outro. A partir dela, conseguimos distinguir o que habita nosso interior e o que os sentidos sentem do lado de fora.
Seguindo esta linha, temos também um outro apontamento que sugere um espelhamento do dentro com o fora. Ou seja, nós acabamos por reproduzir à nossa volta o que está sendo sentido, pensado, armado por dentro. De uma forma bastante simples e que não deve ser utilizada como regra, se temos um quarto sujo, bagunçado, desleixado, isso pode estar dizendo muito do que somos ou do que estamos vivendo neste momento.
Com a urbanidade ocorre algo parecido. Os movimentos de exteriorização do que há dentro, estão diretamente ligados ao que vivemos hoje em dia na sociedade. Se há sujeira nas ruas é por que o nosso corpo de cidadãos não enxerga limpeza nas administrações públicas. Não necessariamente aquele tipo de limpeza com vassoura e carrinho, mas sim, nas questões ligadas à moral e ao exercício do bem público para a comunidade.
Ao mesmo tempo, por mais que haja uma certa distância - a princípio - entre o mundo virtual e a cidade, ambos são ambientes que vivem um novo momento: a sociedade da informação. É a comunicação dos fatos, dos acontecimentos, dos sentimentos, dos pensamentos que influenciam tanto um quanto outro meio. Se algo ocorre na cidade, pode muito bem ser replicado na WEB. Da mesma forma, o movimento contrário. E assim, a intervenção pública, algo que sempre foi discretamente praticada com um senso de protesto, contestação política ou mesmo, arruaça, passa hoje a ter seu sentido mais esclarecido, como uma vontade do cidadão de interferir no meio público, como forma de manifestar a sua expressão individual e também, sua parcela de contribuição para o bem comum.
Esse movimento é mundial, globalizado, ocorrendo em todos os cantos do planeta, principalmente, nas grandes cidades. O usuário toma como referência os muros grafitados em outros locais e passa a intervir em sua própria comunidade, ligando ainda mais a sociedade de informação, transformando a teia urbana em uma só conjugação. Tóqui, Roma, Madrid, São Paulo se parecem mais hoje em dia, muito mais pelos graffitis e intervenções do que necessariamente, por seus prédios comerciais, suas ruas abarrotadas de gentes ocupadas e trânsito enlouquecedor.