Saturday, May 24, 2008

O poder não é o bastante

É incrível como na história temos milhares exemplos de povos e indivíduos que se ferraram por, justamente, acharem que eram por si só resolvidos. Foram homens e mulheres que detinham certo poder temporal, mas que declinaram dessa aristocracia, inclusive se machucando um bocado.
Jesus é um bom exemplo de como o poder não basta apenas por si. Sua eventual colocação foi resultado de vários confrontos ideológicos e mudanças de paradigma. Sua “mensagem” foi arrasta pelos cantos do globo por pessoas que nem o conheceram, mas levaram o seu poder às almas do mundo. Em algum momento, pelo relato da bíblia - que fique claro, Jesus chega a se dizer um só com o criador. Já em seu calvário, ele questiona ao Pai por que este o abandonara. Muita gente questiona o poder de Jesus por ele não ter agido energeticamente - já que costumava fazer coisas mirabolantes e inesplicáveis. Por que ele não se soltou da cruz e derrotou a todos, como um X-Men. Inclusive a uma lenda que tenta explicar a traição de Judas como sendo um desespero em relação à dominação romana. Ele esperaria que Jesus, subjugado pelos romanos, iria realmente se revelar o messias e sua espada flamejante iria livrar Israel do jugo estrangeiro.
Cristo tinha muita sabedoria e claro, limitações. Seu papel de libertador não é mero detalhe. Até então o mundo era pautado exclusivamente no poder bruto, literal, da carne, do corpo, da raça. Havia excluídos e excludentes. A mensagem de Jesus nos veio como que um despertar para a obviedade de que não existem privilégios, povos escolhidos, diferenças reais entre cada um que habita a vida. Seu poder transcendeu a matéria e se transformou em algo muito mais sutil e rico. O problema foi que mesmo assim, alguns daqueles que permaneceram após seu desaparecimento, não tiveram cu para sustentar algo tão leve e perene quanto “amai o vosso inimigo” ou “virai a outra face” ou “todos somos irmãos em Deus”. Em compensação, utilizaram de Cristo como um estandarte de dominação e mais tarde, opressão. Milhares de almas foram banidas para o além pelo poder de Jesus, mas não o do Cristo e sim, da instituição ralé que a partir de seu nome falava. Não só a igreja romana, mas todas aquelas que se desenvolveram a partir do mestre e ao invés de praticarem suas qualidades, dominaram as pessoas com um discurso medonho onde o perdão, a dor e a culpa se tornaram símbolos de rendenção. E assim, nossa sociedade foi montada: de forma torta e caótica. O que se diz, não é o que se faz. O que se faz é sempre dentro de algum esquema de compensação, de garantia de resultado, de conservadorismo.
É uma pena que a imagem de Jesus apagou ele da alma de muitas pessoas inteligentes. Se olhassem para ele como sábio, se pudessem entender suas palavras como dicas de sobrevivência em si mesmo e não apenas na coletividade, tenho certeza que seria muito mais fácil aguentar o calvário deste mundo.
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Sunday, May 4, 2008

Libertas que será libertado

Uma das mais ideológicas e simbólicas representações da cultura brasileira é a bandeira de Minas Gerais. Sua confecção se deu sobre influência da busca pela libertação física e política das garras lusitanas. Em volta do triângulo, símbolo que denota tanto o fogo, a criação, como a ascenção, o equilíbrio e a sabedoria, têm-se alguns dizeres: “Libertas quae sera tamen”. Na tradução do latim, “Liberdade antes que tardia”.
Todavia, gostaria de usar e sempre o li como a frase título deste post - Libertas que será libertado. Dar a oportunidade da escolha de caminhos é a solução para o nosso próprio caminhar. É difícil conseguir romper com uma tradição instintual de negação da liberdade, mas atualmente, não há muito o que fazer em relação a isso. Quando há conflito nesse âmbito, existem machucados. É o pai, o filho, o patrão, o empregado, a escola e o aluno, de uma forma ou de outra, cada um em sua radicalidade sai ferido nessa história de buscar/negar liberdade.
Por que será que é tão difícil controlar/satisfazer o desejo de todos esses pares? Cada um deve ter a sua opinião, mas pelo menos em um dos pontos foi Nietzstche que alertou ao ocidente: não há valor! Valorar o que, se tudo é relativo, transitório, perecível? Não adianta despejar valores fingindo que são eles os corretos; não adianta mais julgar os valores dos outros, pois os seus são os corretos somente para si.
Tudo aquilo que montou o Século XX está em radical subversão. Os locais de confinamento perdem seu valor disciplinador: escola, exército, fábrica. Mesmo sob leis desses lugares, o indivíduo já pode enxergar sua liberdade além daqueles muros. A família passa a perecer e a escolha por companheiros, confrades, associados se torna uma opção ao antigo jogo denominado “Complexo de Édipo”. Pai, mãe, filho, isso são POSIÇÕES e cada um ocupa em seu tempo e espaço, não necessariamente permanecendo nelas ad infinitum.
E tudo tem a ver com essa tal liberdade. Por exemplo, na foto que abre esta mensagem. Alguém teve o trabalho e gastou seu dinheiro comprando material para realizar seu desejo de intervir no ambiente urbano. Porém, outras pessoas ou uma só, também o quis interferir e usando as unhas e a força, dilacerou o trabalho que o primeiro levou certo tempo para bolar e executar. Na versão anterior, haveria indignação e mesmo uma tentativa de se perseguir àquele (s) que infrigiram a liberdade do artista. A questão é que nesta obra exposta ao meio público, o fazedor dela tem que estar ciente desta liberdade anônima e com isto, contar com sua força também. Assim, se antes se negava a destruição, o negativo das coisas, o ponto contrário e oposto à criação, à construção, agora, no tempo da neutralidade, da casualidade e da transformática tudo o que ocorre é lucro, pois todos os pequenos pontos constroem o caminho e o que realmente vale é o caminhar das coisas. Não vale mais brigar pelas coisas, se fazer antagônico à direção. Muito pelo contrário, se a força vem na sua reta, entra nela e pega carona, parar no peito é loucura!
Não existem mais fronteiras localizadas, muito menos poições, o que há são formações de coisas em trânsito, movimentando-se em todos os sentidos e direções. Por isso, ter que exigir a liberdade é uma loucura, um retrocesso. E apesar dessa perda, ainda existem muitas partes da sociedade que se vê à mercê de módulo antiquado que cercea a livre escolha e o direito de ir e vir. Ela é o meio, é o caminho. Negá-la é como viver antes da invenção do fogo, por isso aproveitem o país que vivem, por que nos outros cantos desse planeta, muitas das questões de liberdade estão ligadas às coisas do tipo religião, dinheiro, posição social etc etc. Aqui, pelo jeito, o maior problema é a maconha, talvez. Uma pena, por que parece claro o quanto o proibir causa estragos sociais e morais em nossa sociedade do fingimento. Por que, na verdade, quem usa, usa mesmo e tem um ou outro contratempo. Mas quem se ferra é a sociedade que se vê na mão do tráfico. Tanto os que consomem, quanto os que choram pelo consumo são vítimas da mesma ignorância. Afinal, se as pessoas desejam e isso é fato, e a maneira de negociar esse desejo é apenas através do ilícito, do ilegal, elas vão atrás do seu desejo onde for. Como o governo não tem colhões para assumir essa questão, muitas famílias são abaladas pela desinformação e pelo medo. Quantos foram os pais que acharam que seus filhos estavam perdidos por causa das drogas? E quantos foram os filhos que se perderam por causa do tráfico?

 

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Thursday, May 1, 2008

A Política

Em praticamente todos os lugares onde há gente, há política. Ela é esse jogo que rola por cima e também, por debaixo dos panos. Em nosso país, ela se tornou um termo apropriado para uma classe de pessoas: os políticos. Entretanto, o que há são indivíduos alienados do próprio poder político, pois independente do desejo, do querer, quando se está vivo, se está fazendo política. É assim na sua casa, no trabalho, nos estudos e, principalmente, internamente em nossas negociações mentais, onde a subjetividade também requer manobras de alívio e tensão. Ou seja, esse jogo de amarra-estica, de pega-e-solta, de mostra-esconde, percorre todos os níveis, desde os mais inferiores, passando aos da esfera mídiática - jornais, políticos de carteirinha, personagens de teatro, televisçao, cinema - e chegando a um nível mais elevado onde as coisas acontecem, lá onde costumam enxergar a aristocracia. Todavia este termo não deve ser encarado como uma classificação social. O aristocrata, na verdade, é aquele que, independente do campo de atuação e da forma como atua, está na ponta, vivendo ou enxergando além do que está abaixo ou atrás. Ele consegue vê outras matemáticas que não estão sendo usadas ou mesmo, é o único capaz de manipular habilmente certas ferramentas.
Na América Latina há um espírito político que cobre seus cidadãos, porém existem locais e locais. Se na Argentina e em países de origem hispânica a preocupação com a política do estado faz com que pessoas insiram suas subjetividades na trama urbana de modo a questionar o estabelecido, aqui no Brasil, a política é inconsciente, é feita entre o autor e si mesmo, ou entre um desconhecido e uma multidão de sem rostos. Os temas escolhidos por aqui têm um que mais artístico, menos ideológico. Lá há também muita arte feita nos muros das cidades, porém, uma gama maior do que é realizado tem propósito de inserir na coletividade temas sociais, econômicos e políticos (aquele do nível de Estado). Entretanto, o que se reconhece como identico é uma certa iconografia que busca retratar signos comuns às pessoas, tanto autores, quanto indivíduos que são afetados por estas imagens.


Posted by J D Oliveira at 21:17:47 | Permalink | Comments (2)