Feriado pleno de contradições.
19, Sábado, dia dos Índios - dia daqueles que tiveram suas vidas arrancadas da naturalidade pela mercantilização portuguesa. Personagem de nossa cultura pouco explorado atualmente. Teve seus tempos de glória quando a literatura e as artes se voltaram para ele, mas quase sempre de forma inconsistente ou com narrativa retirada de um original Europeu e deslocada para a América.
21, Segunda, Tiradentes - herói nacional. Um dos poucos. Lutou pela liberdade que o mesmo reino que devastou a cultura anciente, insistia em negar. Muitos acreditam que apesar de toda a bravura histórica, Tiradentes não passava de um pelego.

No Domingo, 20, assisti a um filme sobre a ditadura argentina, “Crônica de uma fuga”. Um goleiro de um time pequeno é sequestrado pelo pessoal do exército e passa meses no cativeiro. Vemos atônitos, o sadismo e a perversidade humana aliada à covardia em cercear a liberdade do outro. Freud provavelmente explicaria, eu apenas só lamento pelo quanto aqueles, que a princípio eram escrotos e violentos, tiveram que descer muito do salto quando as coisas deixaram esse tipo de radicalidade. Os anos 70 foram bons para os outros, para quem pensava era um problema.
Hoje, 21, fiquei meia-hora de frente a um posto da polícia militar enquanto “afixava” meus Zicos num muro alheio. O tempo todo a minha mente elaborava textos para o momento em que os Zomi chegassem importunando. A paranóia se dava pelo fato de que qualquer um ali mais obssessivo não iria admitir que sujassem a “sua cidade”. E olha que deviam ter uma meia dúzia que tava bem a toa no postinho. De certo é que aguardava minha esposa e minha filhinha e acho que essa cena familiar poderia eliminar qualquer aparência de subversivo. Ainda assim, preparei meu discurso em três opções e claro, todas primando pelo diálogo, porém uma mais no sentido “você sabe com quem está falando” e as outras duas mais brandas. Apesar de mais amenas e racionais, ambas não continham a verdade plena da minha atividade que, verdadeiramente, nem eu sei. Gosto do Zico e homenageio o Flamengo. Agora, por que o faço dessa forma, simplesmente não é racional ou intencional. É um experimento que dialoga comigo o tempo todo e com as pessoas. O máximo que faço para dificultar dos outros arrancarem os sticks-stencils é passando um pouco mais de grude nas pontas, fora isso que seja perecível como todas as coisas desse mundo.
Agora, quando fui ver as fotos que fiz, percebo os arames farpados acima do muro. Lembro que o que me confortava e punha razão de que aqueles caras não iriam perder seu tempo indo me importunar por modificar a paisagem era de que por mais que alguém chamasse aquilo de vandalismo, eles não tinham certeza de que eu não estaria fazendo um trabalho publicitário para o dono do muro (hoje os muros são oferecidos e ofertados). Fora isso, qual é o crime que cometo ao colocar imagens sobre o papel e o papel sobre o muro que está sobre o passeio que, por sua vez compõe uma cidade aterrorizada pela recente detenção de seu prefeito.
Nem baseado eu tinha no bolso, apenas a paranóia histórica da repressão sem sentidos daqueles que não conseguem não se importar com a alegria dos outros. Uma pena isso ter existido, uma pena isso ainda existir e com menos razão ainda.