Saturday, April 26, 2008

Na Penumbra se fez a Luz

Um velho ditado oriental conta que do lodo mais sujo, surge a mais exuberante e bela Flor de Lótus. As ruas da cidade encontram-se há muito abandonadas, sujeitas à falta de educação endêmica de nossa cultura. Ao mesmo tempo, esperamos que o Estado, portanto a prefeitura, interfira nessa condição e nos conduza em um ambiente esteticamente sadio. Porém, está mais que na cara e agora, nas barras da prisão, que o poder público “escolhido” por nós, está mais interessado em promover a autoajuda do que em pensar soluções para aqueles que o elegeram. Dessa forma, podemos justificar o caos e o desconforto que algumas paisagens urbanas podem causar em seus concidadãos.
Além dessa ingenuidade e covardia de ambas as partes - de quem espera e de quem não faz, existem outros fatores inerentes às vicissitudes sofridas pela sociedade que fazem as flores de lótus surgirem em muros, ruas e avenidas. A velocidade descomunal, os compromissos e a eficiência produtiva-financeira nos colocam mentalmente uma barreira estética em relação às ruas e àqueles que estão nela, descalços de automóveis, transporte público e outros veículos. O olhar das pessoas se centra nas coisas. Ou seja, sua atenção é nos carros, nas motos, nos sinais, aflitos para continuarem o caminho e, por isso, esquecem do que há na urbe. Todavia quando um personagem anônimo da coletividade vem e modifica a paisagem, o desconforto do diferente não consegue provocar a natural indiferênça com as peças do mobiliário urbano. Muitos, inclusive, se revoltam, ficam indignados e culpam a juventude. Mas os mesmos não conseguem enxergar que a verdade é que são eles próprios, aqueles que desolaram a comunidade com os interesses pessoais sobretudo e que, obssessivamente, constroem o mesmo caminho paralisante e repetidor, que são os responsáveis pelo caos e sujeira acumulado. E vamos além, essas mesmas mensagens, alocadas em locais diversificados do habitual, são elas que provocam o olhar, o senso estético, a própria vontade de mudança. E é por isso que evocamos a deusa perecividade, é Shiva a nossa rainha que nos conduz e avisa:
Nada é permanente, tudo é impermanente. Há espaço para mudança e há força para tal. A potência vem de dois lados: de um é racional, consciente, faz parte do exército da criação interna, reflexiva e de outro, inconsciente, devastador, natural, são as forças da natureza agindo sobre o nosso estado, sobre a nossa pequinez. O que nos basta é fazer a escolha: transmutamos com nossas forças ou esperamos que as forças externas façam sua devastação?

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Tuesday, April 22, 2008

Arames farpados

Feriado pleno de contradições.
19, Sábado, dia dos Índios - dia daqueles que tiveram suas vidas arrancadas da naturalidade pela mercantilização portuguesa. Personagem de nossa cultura pouco explorado atualmente. Teve seus tempos de glória quando a literatura e as artes se voltaram para ele, mas quase sempre de forma inconsistente ou com narrativa retirada de um original Europeu e deslocada para a América.
21, Segunda, Tiradentes - herói nacional. Um dos poucos. Lutou pela liberdade que o mesmo reino que devastou a cultura anciente, insistia em negar. Muitos acreditam que apesar de toda a bravura histórica, Tiradentes não passava de um pelego.

No Domingo, 20, assisti a um filme sobre a ditadura argentina, “Crônica de uma fuga”. Um goleiro de um time pequeno é sequestrado pelo pessoal do exército e passa meses no cativeiro. Vemos atônitos, o sadismo e a perversidade humana aliada à covardia em cercear a liberdade do outro. Freud provavelmente explicaria, eu apenas só lamento pelo quanto aqueles, que a princípio eram escrotos e violentos, tiveram que descer muito do salto quando as coisas deixaram esse tipo de radicalidade. Os anos 70 foram bons para os outros, para quem pensava era um problema.
Hoje, 21, fiquei meia-hora de frente a um posto da polícia militar enquanto “afixava” meus Zicos num muro alheio. O tempo todo a minha mente elaborava textos para o momento em que os Zomi chegassem importunando. A paranóia se dava pelo fato de que qualquer um ali mais obssessivo não iria admitir que sujassem a “sua cidade”. E olha que deviam ter uma meia dúzia que tava bem a toa no postinho. De certo é que aguardava minha esposa e minha filhinha e acho que essa cena familiar poderia eliminar qualquer aparência de subversivo. Ainda assim, preparei meu discurso em três opções e claro, todas primando pelo diálogo, porém uma mais no sentido “você sabe com quem está falando” e as outras duas mais brandas. Apesar de mais amenas e racionais, ambas não continham a verdade plena da minha atividade que, verdadeiramente, nem eu sei. Gosto do Zico e homenageio o Flamengo. Agora, por que o faço dessa forma, simplesmente não é racional ou intencional. É um experimento que dialoga comigo o tempo todo e com as pessoas. O máximo que faço para dificultar dos outros arrancarem os sticks-stencils é passando um pouco mais de grude nas pontas, fora isso que seja perecível como todas as coisas desse mundo.
Agora, quando fui ver as fotos que fiz, percebo os arames farpados acima do muro. Lembro que o que me confortava e punha razão de que aqueles caras não iriam perder seu tempo indo me importunar por modificar a paisagem era de que por mais que alguém chamasse aquilo de vandalismo, eles não tinham certeza de que eu não estaria fazendo um trabalho publicitário para o dono do muro (hoje os muros são oferecidos e ofertados). Fora isso, qual é o crime que cometo ao colocar imagens sobre o papel e o papel sobre o muro que está sobre o passeio que, por sua vez compõe uma cidade aterrorizada pela recente detenção de seu prefeito.
Nem baseado eu tinha no bolso, apenas a paranóia histórica da repressão sem sentidos daqueles que não conseguem não se importar com a alegria dos outros. Uma pena isso ter existido, uma pena isso ainda existir e com menos razão ainda.

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Wednesday, April 2, 2008

TIBET LIVRE

A quem pertence o mundo? A quem pertence a terra e a consciência?
Que Deus nos livre da ignorância e que seja rápido!

O Tibet nunca deixou de ser livre. Aprisionados são aqueles que o acossam.

Posted by J D Oliveira at 17:50:04 | Permalink | No Comments »

Tuesday, April 1, 2008

Uma (Des)construção coletiva

No imaginário, onde tudo é coletivo e individual ao mesmo tempo, construir e destruir fazem parte da mesma raiz. A minha construção começou com o Zico, uma máscara feita da fantasia cultural futebolística e da ânsia de se criar, recriar, virar referência. Em uma das minhas primeiras passagens pela cidade, armado com o spray e a máscara do Zico, defrontei-me com uma construção incabada que todos os dias assola a minha vida. Ali mesmo, resolvi deixar minha marca anônima. Algumas semanas depois, como passo sempre pelo local, para minha surpresa, outras mãos, outra mente, adaptou a minha viagem à própria. Desconfio que tenha visto em Zico, Che Guevara e além de vestí-lo ao modo Rage Against the Machine, inseriu frases de cunho ideológicas na boca do Zico. Segue o resultado dessa história que nunca chegará.


 

Posted by J D Oliveira at 23:54:00 | Permalink | No Comments »