Um mundo perecível - Un monde périssable - A perishable world
Depois de muito tempo pensando no que fazer, cheguei a conclusão de que a arte não necessariamente deve ser pensada. Nem tudo (ou quase nada) está no consciente. O que há por trás de nossos atos são mensagens do que somos, do que queremos, do que sonhamos. O Inconsciente deve ser visto como algo positivo e engrandecedor, não um mistério que nos assola e nos deixa enlouquecer. E dessa forma eu aprendi que enquanto recalcamos nosso movimento - simplesmente não fazendo por que não sabemos o que exatemente fazer - deixamos de participar de nosso próprio mundo, daquilo que está em nossa essência e liga cada ponto da existência. “Fazer”, por si mesmo, já é uma porta que se abre em sua mente para o que nela está estocado, a procura de vazão.
Vivemos em uma sociedade que se apresenta descartável. Ao mesmo tempo, e em paradoxo, pelo excesso de racionalização, qualquer trabalho de foro íntimo é realizado com o intuito de perpetuação. Todavia, o que oferecemos em nossas intervenções urbanas são imagens que se tornam perecíveis à medida em que outros não a querem mais ali, naquele espaço urbano coletivo. Para tanto, tive que atravessar algumas etapas, inclusive de desapego à obra. Primeiramente, grafitei em muros e outros elementos da paisagem urbana usando a máscara de stencil como meio de realização e o concreto e/ou outro suporte, como participante do trabalho, afinal, sua textura e coloração influciavam diretamente no contraste da imagem ali apresentada. Apesar da satisfação em trazer ao meio externo uma vontade interna, realizando este movimento catártico, não concordo com a depredação do patrimônio alheio, não que eu acredite haver um patrimônio, mas há a necessidade de que se preserve a ordem em determinadas circusntâncias e níveis. Assim, passei a utilizar como suporte folhas velhas de jornal. Esse novo meio, além de alimentar minha vontade em não agredir deveras a razão daqueles que possuem os muros (pois ao colar o jornal, a imagem não fica impressa diretamente no concreto ou no material do lugar), ainda me serve de metáfora sobre o meio urbano e o meio de comunicação de massa jornal. Suas notícias, fotos e publicidades têm relação direta com a vida nas cidades e essa relação é refeita ao se aplicar a imagem de stencil e retornar os fatos (que “saíram” da cidade), para os muros.
